quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Porque o Natal está a chegar...

Há tantos e tantos poemas de Natal, mas hoje apetecem-me estes de David Mourão Ferreira...



PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira


imagem in http://www.cm-oaz.pt/noticias.6/concelho.14 /natal_na_cidade_com_muito_brilho_apesar_da_contencao.a1360.html


E este que é triste, mas lindo e sentido...


Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in "Cancioneiro de Natal"


imagem in http://coisasimplesepequenas.blogspot.com


sábado, 20 de novembro de 2010

Lello & Irmão - 3ª melhor do mundo

A Lello & Irmão, livraria emblemática do Porto, situada na Rua das Carmelitas, foi considerada pela Lonely Planet, a 3ª melhor livraria do Mundo (the world's greatest bookshops).
Em primeiro lugar, é classificada a City Light Books, em São Francisco, EUA, e, em segundo lugar, a Libreria El Ateneo Grand Splendid, em Buenos Aires, Argentina. Em 2008, a nossa centenária livraria portuense foi considerada pelo The Guardian a 3ª mais bonita do Mundo.
Confesso que tenho um "fraco" por livrarias, sinto-me nelas como peixe na água, ou melhor, sinto-me como se estivesse em casa. No entanto, há 3 anos atrás, quando entrei na Lello, senti-me como que num mundo mágico onde a qualquer instante poderia encontrar fadas, magos, duendes ou uma qualquer personagem saída directamente das páginas de um livro.
Hoje, quando ouvi a notícia desta mais recente distinção, além de orgulho, senti-me transportada de novo para aquele mundo quase místico, que é a Lello & Irmão, na cidade invicta.
Pesquisei um pouco mais e "visitei", através das fotos disponíveis na net, El Ateneo, que parece um Coliseu de livros (além da 2ª melhor do mundo também foi considerada pelo The Guardian a 2ª mais bonita do mundo) e a Boekhandel Selexyz Dominicanen em Maastricht, construída no interior de uma antiga igreja dominicana (considerada pelo The Guardian a mais bonita do mundo). Mais dois locais mágicos! Eu diria que se poderia fazer um roteiro turístico que contemplasse estas e outras livrarias e bibliotecas, por esse mundo fora. Acredito que os bibliófilos como eu estariam prontos a aderir.
Voltando à Lello & Irmão, também conhecida como Livraria Chardron, tem no vitral do tecto a sua divisa "Decus in labore" (dignidade no trabalho) e está localizada num fabuloso edifício que data de 1906.
Se não se puder ir mais longe até São Francisco ou à Argentina ou à Holanda, então que se dê um saltinho ao Porto e se prove um pouco da magia centenária que esta magnífica livraria emana.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Vinicius... mais uma vez

imagem in http://macsonpontes.blogspot.com/


Porque Vinicius é um dos meus poetas preferidos, porque há ideias que ele expressa como ninguém... porque este poema tem muito a ver com a vida de qualquer um de nós, aqui fica...

"Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos...

Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido... Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre...


Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nos e-mails trocados...

Podemos nos telefonar... conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar... meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo...

Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos...

Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado... E nos perderemos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades...


Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!!
"

Vinicius de Moraes

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Passeio com Sophia

O Oceanário de Lisboa é um agradável destino para um passeio em Agosto, mas tem um encanto especial, além do encanto que é passear como se estivéssemos no fundo do mar - o passeio ao Oceanário é também um passeio pela poesia de Sophia de Mello Breyner.
Em cada recanto do tanque central, espera-nos Sophia, a poetisa do mar (a dado passo eis um verso que diz tudo - "Quando eu morrer, voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar").


Por lá encontramos, "As Ilhas III", "Os Navegadores", "Praia", "No Alto Mar", entre tantos outros e sentimos orgulho, não só no Oceanário, mas também nesta mestre da poesia que dá pelo nome de... Sophia...


"Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.

E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.

E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras."


Oceanário de Lisboa... um excelente destino para um dia quente de Agosto!


sexta-feira, 9 de julho de 2010

Vinicius de Moraes - Soneto do Amigo





30 anos após a partida do "poetinha", como era conhecido Vinicius de Moraes, fica aqui a sua evocação através das suas próprias palavras...



Soneto do amigo

"Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica..."

Vinicius de Moraes


( imagem in http://letras10.com.br/upload/artistas/430/foto.jpg)



terça-feira, 6 de julho de 2010

Matilde Rosa Araújo - um sorriso doce

Li, hoje à tarde, pela internet, a notícia da morte de Matilde Rosa Araújo, lembrei-me de imediato que ela foi professora do meu pai e lembrei-me também de a ver, muito raramente, na televisão... sempre com um sorriso doce. É esta a imagem que guardo desta senhora que, muitos muitos anos antes de mim, abraçou a mesma profissão que eu.
Fui pesquisar um pouco sobre ela e descobri um conto que me emocionou, porque é afinal uma reflexão de professora que, tal como eu, encarava o ensino com amor.
Deixo-vos o texto, porque, embora ultimamente este blog possa parecer um obituário, é antes um hino à vida e a estes escritores de foram maiores do que a vida...

Leiam... com amor.


A FITA VERMELHA

"Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias que tristezas.

Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar.

Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.

A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antas, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.

O Quê? Português, francês. Hoje sei, acima de Tudo, o amor da vida.

Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.

Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez cm quando.

Porque, mais que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina – ou antes, a ter a consciência de que a aprendia.

Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.

Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia.

Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos.

Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em quando. Uma Primavera só no ar adivinhada.

Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora.

Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste.

A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital.

Olhei o retratinho dela na caderneta.

Retratinho de «passe», num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia. Tão cheia de doçura a Aurora! Doente, do hospital tinha-me mandado saudades.

– Vou vê-la no próximo domingo – anunciei às companheiras.

E tencionava ir vê-la mesmo no próximo domingo.

Mas o próximo domingo foi cheio de sol. Sol do próprio astro, quente, luminoso. Igual e diferente, ao mesmo tempo, do sol-sorriso das meninas.

E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do sol, fui passear. Ver mar? Campos verdes? Flores?

Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar.

Começava a Primavera.

Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo domingo.

Hoje sei que o amor dos outros se não adia.

Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro.

Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me, esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam transmitido.

Veio a família: mãe, pai, irmãos, amigos, as colegas.

– Estou à espera da professora...

No dia seguinte a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua doçura, a sua esperança.

A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na almofada, talvez incómoda, do hospital.

Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender.

Não fiquem tristes por isso. Vejam como as flores nascem quase transparentes da terra, como as podemos olhar à luz do Sol, e morrem, para de novo nascerem.

Lembrem-se como de um ovo de um pássaro podem sair asas que voem tão alto em dias de Primavera. T morrem, também, e todas as primaveras nascem de novo. E, sobretudo, lembrem-se do coração de cada um de nós, desta força imensa.

E não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural que se não adia.

Às vezes até precisamos uns dos outros para dizermos que estamos felizes, contentes. Só para isso. Mesmo felizes precisamos dos outros.

Aurora ensinou-me para sempre esta verdade.

As lágrimas que por ela chorei já não lhe deram aquela visita do próximo domingo.

Nem a mim a alegria de a encontrar sorrindo, cheia de doçura, com uma fita vermelha a prender os cabelos escuros. Vermelha de sangue, como a vida. O Sol. Flores vermelhas.

Aurora era o seu nome. E a sua vida uma manhã apenas que, na minha distracção ou egoísmo, não tive tempo de olhar. Uma manhã com uma fita vermelha. Que lágrima nenhuma pode reflectir."




Matilde Rosa Araújo in http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/matilde.htm

Foto in http://www.culturanorte.pt/destaques,0,167.aspx

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Memorial... de Saramago

in sites.google.com/.../jose-saramago/saramago3.jpg


Há dois dias atrás, apeteceu-me pegar de novo no Memorial do Convento. Um livro de que gosto muito, que analiso com os alunos sempre que tenho turmas de 12º ano, mas que é também um dos livros da minha vida. Peguei nele, reli alguns excertos e pensei que teria de escrever neste meu blog, sobre aquele magnífico livro, sobre Baltazar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas. Digo sempre aos meus alunos que o melhor resumo que podem ler (aqueles que acham sempre o livro "muito grande!"), é o que se encontra na contracapa:

"Era uma vez um rei que fez a promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido"

Hoje, quando recebi a notícia da morte de Saramago, pensei "O Memorial ficou orfão". Foi esta a frase exacta que me ocorreu. Afinal, os livros são uma espécie de filhos dos escritores.

O primeiro livro que li de Saramago foi o Ensaio sobre a Cegueira, isto porque resisitia a ler o autor que diziam não saber usar pontuação. Ouvia falar do Memorial e achava que devia ser difícil de ler e, se calhar, demasiado histórico. Li o Ensaio em duas partes. De um fôlego li metade. Depois, tive que respirar. A imaginação do autor esmagava-me, assistir à degradação das condições de sobrevivência das personagens era demais para mim. Após uma paragem de umas semanas, voltei ao Ensaio e conclui a leitura. Magistral!
Passado algum tempo, no meu segundo ano como professora, o ano do Nobel Saramago, decidi que era tempo de ler o Memorial do Convento. Afinal que professora de Português era eu? O Memorial ainda não era de leitura obrigatória no 12ºano (era opcional, ou o Memorial ou a Aparição de Vergílio Ferreira). Li e gostei muito, mas só me apaixonei verdadeiramente por este livro, quando tive que o leccionar, alguns anos mais tarde. A cada ano que tenho que o dar, aprendo e descubro coisas novas. Só me acontece isto com o Memorial e com Os Maias de Eça de Queirós. E eis como o Memorial do Convento se tornou um livro da minha vida. Um livro que é muito mais do que um livro - deu origem, por exemplo, a uma ópera, "Blimunda", que estreou no "La Scala" de Milão -, Baltazar e Blimunda passaram a ser património de todos nós, diria mesmo património da Humanidade.

Saramago partiu e com ele partiu uma imaginação prodigiosa, uma forma muito própria de escrever, mas a que nos adaptamos com alguma facilidade (a pontuação está implícita como as regras de um jogo quando o aprendemos a jogar). Uma personalidade polémica, nada consensual, mas a que ninguém fica indiferente. Um escritor reconhecido, não só com o Nobel, expoente máximo dos prémios literários, mas também já havia ganho o Prémio Camões, em 1995, e deu ele próprio nome a um prémio, o Prémio José Saramago.

O homem, José, era ateu, o autor talvez não o fosse tanto como dizia, mas eram ambos verdadeiros humanistas, disso não tenho dúvidas.
A melhor homenagem que posso fazer a Saramago é citar um dos excertos desse seu livro que é também um dos livros da minha vida...

"Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu"